quarta-feira, 13 de julho de 2011

Capítulo três - Curta

Quando o macarrão já estava feito, e a salsicha no molho borbulhando, ela infelizmente lembrou o porquê de eu estar feliz e fez questão de perguntar de novo. Concentrava-me nas panelas com os dedos cruzados, mas por fim, não deu certo.

Eu tinha que achar alguma coisa, uma coisa que ocorreu no colégio, alguma notícia, para não dizer aquele acontecimento bobo. Tudo menos aquele mico.

-Eu... – Nada saía da minha cabeça. Nessas horas tinha criatividade zero. Vi de relance a ansiedade de saber apesar de estar concentrada na comida.

-Sim? – Disse provando o molho... quente.

-Bom, é meu penúltimo ano na escola. E daqui a uns meses irei fazer 18. Sabe, maioridade.

Ela riu. Riu muito. Gargalhou ao extremo. Percebendo assim, aquilo não foi convincente na resposta para a pergunta. Não tinha definitivamente nada a ver com minha felicidade. E daí que iria fazer 18?! Continuaria aqui. Em casa, no meu quarto, estudando para o vestibular. Claro que poderia sair para baladas, boates, festas e gêneros. Mas eu não era disso e Allyson sabia muito bem.

-Ah, mãe. Qual foi?! Precisa rir tanto assim?! E nem é engraçado.

-Desculpe filha. Mas sabe, é melhor ficar mesmo feliz quando completar 21 anos. É uma diferença enorme dos 18 para os 21. Acredite. – Nessa hora o molho tinha acabado de ficar pronto. O cheirinho era tão bom...

Fiquei pensativa, até. Acho que ela tinha razão. Você estaria começando faculdade. Um outro mundo, uma outra visão, um outro conhecimento. Tentei fazer com que ela entendesse minha “alegria”.

-Mas mãe, é uma excitação vendo assim. Muitas pessoas almejam chegar logos aos 18. Tirar carteira, sair, trabalhar para comprar as suas coisas... – Ela me interrompe:

-E você sabe que não precisa ansiar por isso. Não quero que trabalhe cedo, quero que estude. Não estou pagando colégio para trabalhar. Já conversamos sobre isso, Anne. – Sua voz era tão suave e calma, como sempre. – Curta cada momento antes dos 18. Porque depois vai querer voltar e continuar nos 18. – Disse rindo.

Sim, ela estava totalmente certa. Não tinha o que revidar ou falar algo contra. Ela passou por isso, sabe como é. E eu apenas estava de ouvidos abertos para o que ela tinha a dizer. E claro, obedecer.

Começamos a arrumar a mesa. Coloquei a toalha, pratos e talheres enquanto ela ia misturando o macarrão com a salsicha num recipiente. Já dava para sentir o cheiro de longe. Peter também tinha um ótimo faro: largou o videogame para sentar-se a mesa, colocando o guardanapo na gola da camisa. Bem, é educado, ou parece, mas não se coloca guardanapo na camisa. Já estava lambendo os beiços com cara de que ia devorar tudo. Digo tudo mesmo. Aí teria que sobrar o miojo de galinha... Pode parecer engraçado, mas isso já aconteceu. Peguei o refrigerante, mas não gostei do que vi.

-Mããe, comprou Coca-cola? – Falei gemendo que nem uma criancinha emburrada.

-Seu irmão que quis! – Disse já se sentando a mesa.

-Ahhh, você sabe que eu não gosto! – Faço bico.

-Então vai à rua comprar um refrigerante pra você. – E já estava dando uma garfada.

Não acreditava que teria que trocar meu pijama pra sair na esquina e comprar uma latinha. Isso não é justo! Mas acabei não indo. Minha fome era grande que não conseguiria andar.

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