quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Capítulo dez - Baile

Estudo no Curso Primavera há 14 anos. E como já devem prever, todo ano é a mesma coisa, ou melhor dizendo, todo primeiro dia de aula é a mesma parada.
Você chega naquela manhã ensolarada de verão do mês de fevereiro, vestindo um uniforme nada legal e quente. Você já entra consciente dos deveres, das provas, dos trabalhos em grupos -o que eu detesto-, das zoações, das panelinhas, das fofocas... E, lógico, dos momentos que serão inesquecíveis.
Seu uniforme é azul escuro e branco, com o emblema costurado no blazer das meninas e dos meninos. Sempre me comparei a uma estudante japonesa por ser bem parecido no modelo.
E sem contar que logo às sete da manhã, nós ouvimos um "bem-vindos" após de um logo discurso do diretor.
Estava indo para o meu último ano do ginásio, o ano da minha formatura, sem saber qual faculdade fazer. Claro, tinha algo em mente, mas nada concreto.
Chegando lá com o Peter, eu ainda estava morrendo de sono e pensei que estar lá era a última coisa que eu queria. Acho que já estava cansada da escola... Da mesma escola. Pena que o Peter tinha muito tempo pela frente, muitos anos a ficar no Curso Primavera. Sorte a minha. Não aguentava mais.

Dentro do colégio, assegurei-me de que o Peter estava em segurança com os seus amigos do mesmo tamanho, e, fui andando pelo pátio enorme entre o portão e o prédio. Seu terreno era cercado de jardim bem esverdeado, predominando as flores da Primavera, e com uma fonte jorrando água cristalina no centro. Sempre que passava por esta fonte, minha vontade era de empurrar Ashley de lá. Ashley Martin. Falarei mais dela no decorrer da história.
E em falar na fugura, ela aparece justamente com suas seguidoras, olhando para mim de baixo para cima (Sem sapatos Luana Zabot, nada de jeans Colcci e blusa da TNG... Por que me olhara dessa forma? Pelo amor, estava de uniforme!), dizendo:
-Olá, Annette. Como foram as férias? -Olhou para uma das discípulas, dando um risinho, continuando. - Aposto que passou em casa cuidando do seu irmãozinho, dando uma de babá, limpando o xixi da cama. -Dito isto, todas riram, mesmo eu não vendo graça.
Sua voz era fina e se ouvida o dia inteiro, ficaria com dor de cabeça. Uma voz tão aguda que era capaz dos ouvidos não aguentarem, à ponto de explodir. Não digo isso por ódio, não que eu a odiasse, de forma alguma. Mas desde pequena, já me incomodava com sua voz. Ah, sobre o lance de babá, ano passado eu trabalhei como uma para os vizinhos de Ashley a fim de ajudar o papai na compra de um terreno para começar seus negócios. E sabe, vendo agora, me arrependi profundamente por tê-lo ajudado. Foi aí que a Margareth surgiu. Tudo bem, ele era meu pai e não aguentava vê-lo naquela situação, porém nisso tudo estou prestes a ter uma madrasta.
E sem contar que a Família Montgomery eram seus vizinhos, justo.
Bem, não estava a fim de jogar conversa fora com ela em plena manhã, então, disse curta e grossa:
-Olá. Foram boas. E não. -Minha cara de enfezada aparecendo nesse instante. -Ah, licençinha!
Desviei e segui meu caminho. Minha paciência havia se esgotado naquele instante.
Fale a sério! Fica tomando conta da minha vida e ainda por cima debochando. Felizmente não teve que passar uma situação dessas.
Felizmente? Não! Ela tinha de passar, para ver se calasse aquela boca pintada com MAC.

Já no corredor procurando o meu armário, acabo com uma surpresinha: Não o encontro. Isso mesmo, ele desapareceu. Meu número de todos os anos não estava em nenhum armário. Estranhíssimo...
Ah, óbvio! Armação da loura. Mas ela vai ver só! Soquei o armário que estava a minha frente, sem mesmo saber de quem era, que era pra ser o meu!
Nisso mudei a minha direção para a secretaria que ficava logo à esquerda quando a inspetora anuncia com o bendito apito -justo no meu ouvido!- para que todos os alunos fossem ao pátio externo para aquelas "boas-vindas" que mencionei antes.
Nesse momento quase xinguei a senhora Dulce por todos os nomes, mas não o fiz porque Lauren e Meg apareceram no mesmo instante, atrapalhando o meu repertório de xingamentos.
Elas me pegaram pelo braço cruzando-os e me arrastando em direção ao pátio. Sabe, eu gosto muito das meninas, elas eram o motivo pelo qual vinha à aula. Porém, algo me irritava tanto sobre elas: quando aparecem em momentos não esperado. Odeio quando aparecem do nada, seja para interromper ou estragar, que no caso, foi o que acabara de acontecer. Tentei pará-las, entretanto, a força era maior que o peso.
-Meninas, eu tenho uma palavrinha para a senhora Dulce, espera aí...
-Eu tenho certeza de que não é mais legal que isso aqui. - Meg afirmou.
Quando dei por mim, já estava lendo um cartaz pendurado em duas árvores, cheio de purpurinas e essas frescuras de Ashley, e, uma multidão estava fitando o tal cartaz.
-Não é maneiro, Anne?! - Lauren com um sorriso de ponta a ponta, Meg batendo palmas e dando pulinhos e eu de queixo caído.
Eu conseguia escutar o falatório ao redor e a felicidade do diretor que se orgulhava pela escola e pelo bom trabalho que estava fazendo, pois pela primeira vez em vinte anos teríamos um baile de boas-vindas aos estudantes.

De fato era só para o ginásio. E como era Ashley Martin que estava organizando tudo, ela não iria gostar de ver pirralhos -na mesa atacando comida- presentes em sua festa. Achei muito bom porque não precisaria levar meu maninho e nem tomar conta.
Você pode estar se perguntando por que justo Ashley a organizadora. Pois bem, seus pais são muito ricos e muito amigos do diretor, então eles ajudam na área financeira do Curso Primavera, até porque é onde sua querida filhinha estuda, e para sua boa reputação. Ashley, festeira do jeito que é, seria muito bem encarregada para fazer um baile, pois tendo o dinheiro de seus pais e permissão do diretor, a festa seria feita apenas por ela, sem nenhuma intervenção.

Confesso que gostei. Porque vejamos, iríamos ter duas festas naquele ano. A de boas-vindas e a de formatura. Mas nessa apenas os alunos iriam.
Depois do alvoroço do pessoal em relação à novidade que estava contida no cartaz, o discurso do diretor e a tentativa de encontrar a senhora Dulce, já estava na sala, sentando na minha carteira dos fundos. Respirei fundo e fechei os olhos, me conformando da volta à rotina, das minhas notas que iriam vir e da chatice de aturar a patricinha loura todas as manhãs...
Segundos depois abri os olhos e ela já estava sentando-se a algumas carteiras à frente, me fitando com seu olhar altivo e brilhante por ser azulado. Parecia a Malévola.
Infelizmente não ganhei olhos claros e nem a cor loura dos cabelos, entretanto, se eu tivesse encheria meu guarda-roupa de blusas azuis para destacar os meus olhos.
Ok. Nasci de olhos castanhos.
Após soltar faíscas pelos olhos, sentou-se por fim jogando os cabelos enrolados nas pontas e rindo com as seguidoras. Logo após, Lauren me cutuca:
-Então, tem roupa para ir?
-Acho que não...Faz um tempo que eu não vou à uma festa, tenho que ver se as que eu tenho ainda cabem em mim.
-Também! - Retrucou animada. - O que acha de irmos comprar um novo? - Seus olhos castanho-mel arregalaram-se em frenesi. - Deve ter modelos novos...
Lauren era bem radical. Tinha cabelo vermelho e estilo meio grunge. Não que ela não tomasse banho, mas em suas roupas o xadrez destacava-se com uma blusa de banda por baixo. Detestava usar o uniforme assim como eu. E eu tinha certeza que seu vestido recém-comprado seria customizado por ela assim que chegasse em casa.
Enfim, topei. Afinal, eu tinha que ir bonita.

domingo, 18 de setembro de 2011

Capitulo nove - Divertido e cansativo.

O fim da tarde com o Adam foi bem legal, apesar de ele ter ganhado com 27% de diferença, fazendo os meus polegares doerem até os meus músculos dizerem chega.

Na verdade, não sei quanto tempo fiquei lá. Melissa não se incomodou com a nossa presença. Fez até cookies para lancharmos. Minha fome estava apertando, admito. Mas só percebi depois do jogo e quando o cheiro estava chegando à sala.

Vou comentar... Sou péssima no Guitar Hero, literalmente.

Nesse período, Adam me passou algo bom, além do calor que sentia ao estarmos próximos. Era algo que sentia quando estava com ele, apenas.

Parecia que eu já o conhecia faz tempo. Ou até mesmo em reencarnações.

Se eu realmente acreditasse em vidas passadas, diria que talvez tenhamos nos encontrado no século 18. Eu, Annette, vestindo aqueles espartilhos estilo Maria Antonieta e o Adam como o Luis XVI, nos grandes salões de festa. Tentando-o seduzir com o meu olhar atrás da máscara de fantasia. Ele, claro, muito mais bonito e elegante com sua roupa de nobreza e aquela peruca branca mega engraçada.

Ou até mesmo na década de 1960, a que mais amo, no auge dos Beatles, vestida de bolinhas pretas num vestido de tom amarelado com faixa na cabeça, conversando com minhas amigas na danceteria de piso preto e branco. Ele aparecendo em seguida com seus amigos, vestido de camisa branca e casaco de couro preto e topete cheio de gel.

Só que um detalhe: com aqueles olhos pretos brilhantes e encantadores.

Sim, acabei rindo ao imaginar essas cenas.

Voltando para realidade, isto não aconteceu. Pra mim não existe vidas passadas. E o Adam eu conheci agora, aqui no meu prédio, em pleno século 21.

Mamãe não havia chegado ainda. Pensei que a comida do novo restaurante fosse muito boa ou a conversa estava boa. Sem contar que a Rose fala demais. Sim, não pára. Só quando bebe a sua Coca-cola zero.

Já em casa, deitei-me no sofá. Melhor dizendo, me joguei e fechei os olhos.

Que dia havia sido!

Meus pensamentos voltaram-se para o shopping. Eu não conseguia engolir aquela história. Já foi difícil pra eu agüentar o namoro dos dois, de aceitar, de cair a ficha que meus pais tinham se separado. Agora vejam só, irão se casar!

Minha vontade era de gritar. Realmente estava indignada.

Meu pai sempre me chamava de “minha menininha.” Eu era “sua menininha”! Aliás, eu sou.

Mas é bem provável que a Margareth tenha uma filha e ela pegue o meu lugar. O meu status.

Ah, isso não. Que raiva!

Será que se esqueceu de nós? Dos momentos felizes em que passamos? Será que acabou o amor dele para com Alyson?

Essas perguntas fizeram com que meus olhos enchessem de água. Virei de lado no sofá e fixei meus olhos para o porta-retrato sobre a mesa de centro. Lá estávamos nós quatro, sorridentes, na minha apresentação de dança. Estava com 11 anos, e Peter na barriga da mamãe.

Não quis que tirassem esse retrato ou guardassem. Aquele dia havia sido muito bom para mim. Minha primeira apresentação da dança que eu mais amava e minha família estava presente, me prestigiando. E para mais felicidade, o Peter nasceu à noite.

O problema agora é que eu não sabia se mamãe já sabia do casamento marcado. Porque até então, chorava todas as noites por causa dele. Apesar do seu sorriso durante o dia, no trabalho ou em casa, a noite se transformava em tristeza, em saudade.

Senti os passos de Peter vindo à sala devagarzinho até a poltrona oposta ao sofá. Olhei para ele e vi que já estava de pijama, a que mais gostava, de algodão do Bob Esponja. Apenas sorri, dizendo:

-O que houve? Já vai dormir?

Balançou a cabeça, sua carinha era de sono.

-Como vou dormir se não jantei?

-Bobo! – É verdade, havia me esquecido do seu jantar. – Está bem, farei agora. O que quer comer? – Perguntei logo me levantando do sofá. Ele tinha que dormir cedo para ir à escola amanhã cedo... Opa! A escola! Eu me esqueci completamente.

-Peter, amanhã começa as aulas! – Saltei do sofá, andando de um lado para o outro com a mão na testa.

-Jura maninha... – Sua voz saiu baixa, e um pouco debochada. - Fica pensando no Adam, e olha que no dá. – Dobrou as pernas, encostando os joelhos na altura do peito e ficou me olhando, sorrindo.

-Que Adam o quê, menino. Tenho mais no que pensar!

-Ah sim... Sei. Aposto que estava pensando nele agora. Ai meu Deus! Como ele é lindo! – Tentou imitar a minha voz.

-Olha aqui, Peter. – Parei de andar, me segurando no encosto do sofá. – Se continuar eu não farei o seu jantar, e aproveitarei pra arrumar o meu material e dormir. Espere a mamãe. –Andei até o meu quarto, mas parei na porta do corredor para comunicá-lo:

-E ah, eu não tenho essa voz.

Já fechando a mochila com todo o material para segunda-feira, minha mãe aparece abrindo a minha porta. Sorridente, falou:

-Oi filha, cheguei! – Ela olha para minha mochila. – Hum, animada para o primeiro dia de aula?

-Ah, super... – Falei num tom irônico e coloquei na cadeira do computador. – E como foi lá? – Sentei na cama, já com a roupa para dormir.

Ela se sentou também, mas na beirada.

-Estou por aqui de comida. – Pôs as mãos no pescoço. – Muito bom o restaurante. E você? O que você e seu pai fizeram? Peter ficou me contando o que ocorreu lá na casa do Adam até eu coloca-lo pra dormir. – Riu.

-Eles são feras no vídeo-game, tenho que admitir. E a Melissa foi um amor com a gente. – Sorri, desejando não ter que contar a parte com meu pai... E num segundo veio em mente o acontecimento de sexta. - Eu já conhecia o Adam de vista. Quer dizer, a Diva foi pra porta de Melissa cheira porque estava com cheiro de comida delicioso. Então quando fui pegá-la o Adam apareceu.

-Ah, é? - Ficou ainda mais surpresa.

-Sim, mas passou direto. Não houve aquela troca de diálogos entre vizinhos, sabe? Com certeza me achou uma estranha ou maluca.

-Só que pelo visto gostou muito de você. – Sorriu com esta conclusão.

-Não acho mãe. - Olhei seriamente em seus olhos, desejando que aquilo fosse verdade.

-Por que não? Percebi que ele te olha de um modo diferente.

-Acha mesmo? – Mordi os lábios. Por mais que eu estivesse duvidando, eu estava feliz. Queria pular nesse exato momento.

-Sim, mas é estranho... Só se conheceram hoje, certo? –Não. Ontem também quando a Melissa precisava de açúcar.

Quase disse isso, mas preferi ficar calada.

Queria realmente falar sobre isso, o que eu sinto quando estou com o Adam, aquele olhar que me deixa arrepiada, e tudo o mais. Mas já estava tarde.

Disse que estava cansada e que amanhã falaríamos disso. Concordou me beijando na testa e dando um "boa noite" e foi para o quarto.

Deitei e fechei os olhos aliviada.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Capitulo oito - Dificil.

Nada como ir ao Shopping com o meu pai.

Ele sempre marca um programa bem bacana para um fim de semana. Como o da última vez, fomos a um parque brincar de tobogã, que, aliás, o Peter não parou de falar desse dia após uma semana.

Separou-se da mamãe quando eu tinha 15 anos. Parecia que o amor dos dois havia acabado e o pior de tudo, eu havia presenciado a crise do casamento.

Pensamos que seria uma barra para o Peter, mas felizmente aceitou numa boa, embora não saber de muita coisa, pois não entenderia. E também não tem sente falta de uma figura paterna. Sempre que papai pode, a gente sai junto.

Só que o Peter ainda não sabe da nova namorada do papai. Ele não sabe como contar pro maninho. Tem medo de sua reação. E o pior de tudo, o namoro do papai com a sua namorada já tem um ano.

Peter acha que Margareth é apenas uma colega de trabalho. Nem desconfia. Aquela perua que me leva as melhores lojas.

-Mas pai... Uma hora você terá que contar, não acha? – Perguntei a ele no restaurante australiano que havia me levado após termos ido ao Zôo, que por sinal era muito bom.

-E se ele não aceitar meu namoro com Margareth? Não é melhor esperarmos?

O Shopping Center estava lotado, pois era domingo.

Domingo de liquidação.

Então, o bairro inteiro vem para o mesmo local, para o mesmo propósito: comprar. Menos eu: para sair apenas passar um final de semana com o meu papai. Peter não viera conosco porque foi à casa de seu amiguinho Adam jogar Ragnarok ou Street Fighter. Bem, tanto faz.

Após uma boa andança pelos pisos e um lanche no Bob's, fomos a minha loja preferida, Coliseum, por causa da insistência dele. O que bem estranhei.

- O que acha desse vestido, filha? – Perguntou, apontando para um de seda azul com caimentos e um laço abaixo do busto, seu tamanho era acima do joelho.

-Lindo! – Voltei a olhar para o vestido, pois azul era uma das minhas cores preferidas. Próprio para um casamento ou uma festa social... Opa! – Por que a pergunta? – Virei os olhos para a sua direção.

Segundos depois meu pai deu um longo suspiro e disse:

-Eu e Margareth... – Demorou para que as palavras saíssem de sua boca. – Vamos nos casar.

-Como é que é? – Fiquei boquiaberta. – Acho que não ouvi direito. - Sua expressão era triste. Talvez pensando na burrada que acabara de fazer.

-É isso mesmo. – Olhou pra mim com os olhos caídos. – Estamos de casamento marcado.

-Não, papai! Você não pode casar com ela! – Tive um treco.

-Mas você não gosta da Margareth, filha? Tentou abrir um sorriso, que não transparecia em seu coração. – Vocês se dão muito bem. Ela é uma boa mulher, você sabe. - Manteve o tom de voz, baixo.

Nessa hora já estava metros de distância. Eu, Annette, é que já estava berrando.

Aquilo não podia ser real. Meu pai casando-se outra vez. Mas não com a minha mãe, e sim, com sua colega de trabalho. Ou melhor, dizendo, sua namorada.

Tem que ver isso aí, pensei indignada, andando o mais depressa até a porta principal, porém, meu pai me alcança, pegando em meu ombro.

-Filha, tente entender... – Suplicou. Parecia um cão sem dono. Só que pelo o visto, iria ter uma dona, com dia marcado.

-Entender o quê, papai? Que você não vai mais voltar com a mamãe? Que eu e o Peter vamos ter uma madrasta? Ah, é! O Peter! Ele vai gostar disso? Eu vou? – Minhas lágrimas já percorriam pelo o meu rosto.

Aquele sábado havia sido o pior de todos. Definitivamente.

Papai não deixou que eu pagasse um táxi na calçado do Shopping. Então, me levou para a casa com seu carro, com o perfume de Margareth no ar.

E o silêncio reinou até eu abrir a porta e bater. Estava na cara que não queria papo, e nem estar naquele casório.

É, fui muito mal criada.

-Filha! – Ele me chamou. Virei sem querer virar. – Nossa conversa ainda não acabou ok? Eu amo você. – E seguiu com o carro.

E eu queria terminar aquela conversa?

Subi as escadas batendo o pé, enfurecida, bufando, com fumaças saindo dos ouvidos. Quando cheguei à porta de casa, logo veio em pensamento “preciso contar para o Peter”, me afastei indo em direção às escadas, subindo mais um lance até chegar à casa do Adam.

Casa do Adam. Meu coração começou a acelerar.

Respirei fundo e toquei a companhia.

A porta de madeira branca com o número 202 foi logo aberta por uma mulher com cabelos castanhos escuros, com avental de cupcakes e uma toalha, com o qual enxugava as mãos. Mais ou menos da minha altura.

-Olá – Esbanjou um sorriso ao me ver. Seu sorriso era largo que nem a do filho.

Demorei um pouco para encontrar as palavras, porque ela fez com que minha raiva tivesse cessado na hora, embora estivesse enfurecida por dentro. Doida para compartilhar com o meu maninho a decisão mais horrível que papai fez.

Só que... Eu pude passar com os olhos para a sala, onde os vi sentados, jogando um game que não reconheci e se divertindo com palavras sendo ditas pelo o Peter:

-Vai! Chuta! Ataca!

O meu desejo parou na hora. O que eu iria dizer poderia acabar com a sua diversão, com o seu momento de criança. Por conta disso tirei a conclusão de que não iria contar a ele. Pelo menos não agora.

-É... Eu só queria buscar o meu irmão... – Apontei em direção a sala, apoiando em seguida a minha mão no meu braço aposto, querendo me encolher toda. - Mas acho que não vou ­interromper... – Tentei sorrir, apesar de me sentir constrangida.

-Ah, você é a irmã do Peter? – Perguntou toda simpática. Apenas fiz que sim com a cabeça. E continuou: – Ele é um fofo! Adam realmente gosta dele. E acredito que o Peter também. – Sorriu com os olhos castanhos (da cor do cabelo!) brilhando. – Prazer, sou a mãe do Adam, Melissa Harris. Ah, claro. Não dá trabalho nenhum.

Uau!

Ele leu meu pensamento.

Inacreditável.

-Vocês são bem parecidos. Desconfiei que fossem parentes. – Dito isto, bateu a mão na testa. – Ah, quer entrar? Jogar com eles? – Esbanjou outro sorriso mega simpático.

Recusei.

Ainda não conseguia engolir o que estava gritando dentro de mim. E realmente não sabia o que fazer. Será que mamãe já sabia? Pensando assim, realmente fui imatura com meu pai. Ele não merecia essa reação e sim compreensão. Mas por outro lado... E a mamãe?

Já descendo as escadas, ouço alguém me chamar.

Reconheço a voz grave e sexy.

Adam.

Parei nos degraus, quase no fim do lance. Virei com o coração disparado. Aquele garoto me fazia sentir assim, e com calor.

Ele desceu as escadas também, parando a uns quatro degraus acima de mim. –Anne! Aconteceu alguma coisa? – Já olhava em meus olhos daquela forma, me deixando corada.

-Hum... Não. – Fiz que não com a cabeça. – Está tudo bem. – Sorri sem mostrar os dentes. Tentei desviar os olhos de seus braços a mostra por conta da regata preta, são tão...

-O Peter tem que voltar pra casa? Você não quer jogar também? Peter disse que você joga alguns. – Sorriu, mas logo parou porque minha expressão não estava muito boa. Espera! Então quer dizer que falavam de mim?

Ele por fim desceu mais dois degraus, ficando mais próximo, me deixando tensa com sua presença, com calor (sim!) e taquicardia.

-Está tudo bem? – Inclinou um pouco a cabeça, com olhar de preocupação.

-Sim, tudo bem Adam. – Olhei meio de lado, a resposta não havia sido muito convincente. Até eu achei. Ele arqueou as sobrancelhas escuras. – É sério. Obrigada, não... – Fui interrompida pelo o barulho da minha porta.

-Oi mãe. – Desci as escadas para me aproximar dela.

-Olá filha! – Ficou surpresa ao me vê. – Já chegou? – Perguntou fechando a porta.

-Sim... Vai sair? – E não me disse?

-Vou sair com a Rose. Vamos jantar naquele restaurante novo da esquina. – Dito isto, olhou para o Adam, esperando uma apresentação.

-Mãe, este é o Adam. O vizinho de cima.

Mamãe abriu um sorrisão. Quando virei para o Adam fiquei surpresa de já vê-lo ao meu lado.

Acenou, sorrindo para a mamãe. Ela, por fim, estendeu os braços para cumprimentá-lo, dizendo:

-Allyson Smith.

-Bonito nome, Sra. Smith. – Ainda mostrava os seus dentes esbranquiçados.

-Obrigada. - E continuou. - Ah, você é o rapaz que o Peter falou. - Reconheceu-o.

-Sou eu mesmo. – Cruzou os braços, rente ao peito. Claro, evitei olhar para os braços de novo... – Eu também tenho uma irmãzinha da idade dele. – Soltou um riso.

-Que bacana! – Alyson olhou para o relógio. O relógio que o papai dera a ela. O que eu logo me lembrei da tarde, do casamento. – Bom, deixa eu ir lá. – Olhou para mim em seguida – Depois me conta como foi com o seu pai. – Será que vou precisar contar sobre ele e a perua? Chegando no portão, virou e mandou beijo. – Cuide-se filhinha!

Suspirei. Bem... Novamente sozinha com ele. Arrepiei-me só de lembrar isto.

Ficamos uns cinco segundos nos olhando até o meu irmão gritar.

-Adam!!!!!! Vamos acabar o jogo!

Rimos no mesmo instante.

-Então, topa jogar também? Ou vai preferir ficar em casa... –Aproximou, olhando em meus olhos. – Sozinha? – Acredito que estava prevendo um sim.

Nervosa do que jeito que estava, apenas disse:

-É uma boa.

Subimos as escadas.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Capítulos sete - Olhares

Queria chegar logo em casa e enfim ter uma boa noite de sono. Até que...

... ao subir as escadas para o prédio, eu o vejo sentado no topo da escada. Parei. Parei de andar ao pisar no primeiro degrau. Meu coração disparou, minhas pernas bambearam que até pensei que iria cair, mas graças a minha inteligência me segurei no corrimão mega gelado.

A luz estava fraca para a sua direção. Via perfeitamente seus dois amigos, que vira mais cedo, rindo e conversando, o que me deixou muito triste. Bom, até me deparar no seu sorriso. Algo surreal, pois só a luz só refletia lá, apenas lá, não deixando que eu visse seu rosto e o corpo, o que eu achei que estava com a mesma roupa de manhã. Será que esteve na rua esse tempo todo? E o que estava fazendo? Perguntas desse tipo vieram a minha cabeça.

Tudo bem, não sabia as respostas. Só que eu precisava seguir para casa.

Quando finalmente decidi subir mais um degrau, ele me olha. Não sei. Foi automático. Justo na hora. Será que ouviu passos? Pensou que fosse um vulto? O céu estaca escuro e as estrelas brilhavam, sentia a brisa no meu rosto. O dia terminara bem, mas terminaria bem melhor se ele estivesse sozinho... Bem, não importa.

Nesse momento, nossos olhos se encontraram. Eu não conseguia sair do primeiro degrau e do segundo. Seu olhar me paralisara de tal forma que não havia explicação. E ainda continuava sorrindo! Sorrindo pra mim. Só pra mim. Ê felicidade. Mas... Tinha que sair de lá, certo? Pois bem, acabei com essa ceninha - linda - engolindo em seco, desviando o olhar para baixo. Subi e ao passar por ele, ouço um barulho. Forever, do Papa Roach.

Era seu celular.

Caramba! Esse troço vive tocando?!

Entrei no prédio e corri para o meu quarto.

-Anne! Anne! Anne! – Senti um ser pulando na minha cama. Tentei abrir os olhos com toda claridade. – Acorda, mana! – Só podia ser.

- O que é garoto? Deixe-me em paz! – Virei de lado... pra nada. Peter me puxou de volta. Se ele puxar a minha coberta, pensei, vou dar um soco que ele vai se arrepender pelo o resto da sua vida. – Não, Peter. Quero dormir.

Mas não deu em outra. Ele realmente quis o soco. Saí da cama furiosa e numa rapidez que ele passou pela porta em disparada até a sala. – Não vai escapar de mim, moleque! – Bradei, chegando na sala até ter uma surpresinha, que eu diria muito boa, tirando o simples fato de estar de baby doll da linha Pink...

...Na frente do meu vizinho.

Tudo bem, ele estava (com bermuda e regata, uau!) apresentável. Ou melhor, bem mais apresentável que eu. Evitei o máximo que eu pude para não olhar para baixo.

Sim, não gosto de pés.

Você deve estar perguntando da minha reação, certo? Pois bem, não tive. Não consegui. Não me mexia. Parecia que havia colocado super bonder no chão ou algo assim. Minha vontade era de enfiar minha cara na privada logo.

-Peter, querido... – Tive que mudar meu excesso de fúria para meiguice. – Por que não me avisou que tinha visita? – Fuzilei-o com o olhar. Ele escondido atrás do meu vizinho, falou baixo:

-Você não me deixou falar... – Seu tom de voz era de medo. Em seguida virou para a visita – Não disse que ela era maluca?

Maluca, eu?! Imagina! Olha só, Peter já dando uma má impressão de mim? Ah, não!

-O quê? – Fiquei muito furiosa. – Mamãe ensinou que não deve sair por aí dizendo mal da sua irmã. – Minha expressão era de brava, vale lembrar.

Meu vizinho riu. E eu derreti com seu sorriso (que ponto fraco!). Pude amanhecer com seu sorriso branco e largo. Estava achando graça na situação, contudo seu riso logo cessou. Tocou-se do motivo que estava em minha casa, mas demorou encontrar palavras:
-Hum... Bem, minha mãe pediu pa-para que eu p-perguntasse se vocês têm açúcar. Er, se vocês poderiam... e depois iríamos devolve-ver.

Não sei quem estava mais constrangido com a cena. Ele é gago?

Não.

Estava nervoso. Pude perceber que seu olhar não saía dos meus olhos. Ah, é! Estava quase despida (e com cara de sono) na sua frente, nem querendo saber o estado do meu cabelo.

-Eu não sabia onde estava o açúcar, então esperamos você acordar e nada. Adam me pediu para que eu te acordasse né Adam? – Ele concordou com a cabeça ainda olhando para mim. – Fui lá mesmo sabendo que iria me dar um soco. – Sorriu.

-Que isso, Peter...

-Eu sei como é. Tenho uma irmã mais nova. – Tratou logo de dizer. Entreguei logo o saco de açúcar para ele. Aproximei com o coração pulando pra fora.

-Ah, é? Cadê ela? – Sorri olhando em seus olhos.

-Está na aula de balé, eu acho... – Coçou a cabeça.

-Puxa, quero conhecê-la!

-Não, garota não! – alertou Peter.

-Ela tem sua idade, Peter. – Adam bagunçou o cabelo do meu maninho.

-Espere. Vocês já se conhecem? – Alternei os olhos para os dois, boquiaberta.

-Tivemos tempo suficiente quando esperávamos você acordar. – Riu o Adam, concordando com a cabeça.

-É. Você demorou demais. Babou e tudo. – Depois dessa, quase dei uma voadora nele, mas como sou educada, fiquei quieta.

Disse, trincando os dentes:

-Maninho, por favor, fale somente o necessário, está bem?

Entretanto, me ignorou:

-Anne, ele joga playstation! Não é demais? Vou todo dia pra casa dele jogar XBOX, Nintendo Wii,... – Listou, pulando no sofá.

-Calma garoto! Isso se sua mãe deixar... – Após dito isto, Adam olhou para mim – Não é Anne? – Seus olhos castanhos brilhavam, sua boca mexia de forma tão... encantadora.

Que ombros largos!

Ah, sim. Respondi:

-É, é é é sim. – Gaguejei também, uhul. Porém, ele continuou a me encarar de forma comprometedora. Estava querendo ler minha mente?

Ok, viajei.

-Adam! – Chamou meu irmão. – Gostou de ver a maninha de baby doll? Se quiser eu tiro uma foto dela... – Corri pra fechar a matraca.

Vou te bater, Peter!!!!!!!!!!!

Capítulo seis - Nostalgia

- Um ingresso para Muita... – Tento lembrar o nome que Meg disse – Muita... Caramba, qual é nome dessa porcaria de filme?! – Já estava nervosa e a mulher atrás da bilheteria estava com o processador lento, nem sabia o nome do filme, também!

-Ei, muita calma nessa hora. Tente lembrar o nome do filme. – A voz dela saiu tão automática, parecendo aquelas máquinas de Drive-thru do Mc Donald’s.

-Isso! – Dei um pulo e o pessoal atrás estava olhando pra mim. Todos ao meu redor. Mas nem liguei, apesar da moça lerda, ela me ajudou a lembrar. Eu que fui idiota de ter esquecido. Com o ingresso na mão, corri para sala.

“Agora que são elas.” – Pensei. Sala escura, não dá pra ver ninguém e nada, onde estariam as minhas amigas?

Depois de trinta segundos pisando nos pés das pessoas, pedindo licença e forçando a vista pra vê-las, descobri que estavam rindo da minha situação nada cômica. Sem contar da parte do “Sai da frente, garota!” Que povo mal educado...

Recompondo-me, respirando fundo e sentando na cadeira dobrável com o braço dobrável, Lauren comenta baixinho:

-Chegou bem, Anne? – Ela ri. Sua engraçadinha. Olhei pra minha amiga com cara feia.

-Muito bem, obrigada. – Voltei a olhar pro telão. Estava na parte onde Bruno Mazzeo estava contracenando com duas atrizes. Era comédia. Nem via graça nesses filmes nacionais, os internacionais deixam o nosso no chão.

Mas é verdade, talvez noventa por cento da população achem isso. Se bem que eu já assisti um muito bom com a Scarlett. Aquele sim foi um ótimo filme.

Tá, vou confessar que eu gostei, ri também. Em partes do filme eu mudava o meu foco, pensava o quanto aquele dia foi cheio, muito cheio. Embora eu quisesse me distrair com minhas amigas, meu corpo não deixava. Parecia que tinha feito tanto, só que nada fiz. Queria mesmo era uma boa noite de sono.

Depois de duas horinhas sentadas na cadeira confortável com o braço dobrável, o que mais queria era levantar, esticar a perna, circular meu sangue. Infelizmente eu sou assim, não agüento ficar muito tempo sentada como em pé. Fora que minha boca já estava doendo de tanto dar gargalhada.

-Então, querem ir a uma lanchonete aqui perto? – Optou Meg depois que saímos da sala, já na calçada da rua.

Concordamos em ir.

Acabamos indo a Lanchonete Frogs. Nunca ouvi falar. Meg disse que foi inaugurada há um mês, mas ainda não tinha comido lá, nem Lauren.

Até que era bem legal na parte de fora. Sua parede era azul claro, cor do mar e na entrada verde escuro. Tinha dois andares, suas janelas pareciam como de casas de praia coberta com palha ou algo parecido. Um pouco distante havia dois coqueiros. Foi o que mais achei maneiro naquele lugar. Uma lanchonete meio paradisíaca no meio de uma cidade. Sinistro.

No interior, como já devem adivinhar, era verde. Um verde bem clarinho misturado com azul, tornando verde-água. Sentia-me dentro do mar. Limpo, organizado e com um cheiro delicioso.

Tinha alguns traços como McDonald’s, mas felizmente com o cheiro diferente. Escolhemos uma mesa perto da janela. Então, pegamos o Menu.

-Vocês vão querer o quê? – Perguntou a garçonete meio ofegante. Deveria estar cansada, com sono e ter feito aquela pergunta mais de vinte vezes, pois lugar estava bem movimentado. Baixa, ruiva, com mil piercings na orelha. Foi pude perceber nela.

Vamos ver... Hambúrgueres, batatas fritas, pastéis... Nada me interessava. Definitivamente estava sem fome.

-Quero um sanduíche de peito de peru light. – Falou Meg olhando para o cardápio. – E um suco de laranja. – Sorriu ao terminar.

-Anotado! E você? – Sua direção estava pra Lau.

-Ah, vou querer uma porção de fritas com molho cheddar e uma Coca-Cola.

-Ok, e... – Não a deixei terminar. Poupei sua voz. Como sou fofa!

-Só vou querer um cafezinho. – Sorri. – Ah, com chantilly!

A garçonete se retirou com a Lau comentando:

-Você e sua cafeína. – Revirou os olhinhos. Fitei-a.

-Minha querida, pelo o que eu saiba, Coca-Cola contém cafeína também. – Há! Strike! Anne um, Lauren zero.

Mas claro, se enfezou. Só a Kim mesmo pra me acompanhar no café!

-Nos conta então, por que demorou?

-Advinham?! The Sims com o Peter. Perdi totalmente as horas. – Suspirei - Controlar vidas dá trabalho.

-Alguma coisa tinha, você não é de se atrasar. Diferente da Meg... – Seu olhar fulminante foi para a direção oposta. Nós duas, claro, rimos.

-Comigo tem que se acostumar. Até o Phillip já sabe o esquema. – Piscou os olhos verdes. Nesse momento nossos pedidos vieram. Como foi rápido.

Tomei um gole do café preto acompanhado com creme de leite batido por cima. Estava numa temperatura agradável e delicioso, apesar do clima quente. Tomei mais um gole mesmo sabendo que sentiria uma onda de calor por dentro.

E outra, eu não poderia contar a elas sobre o acontecimento breve de hoje. Pelo menos não agora. Se bem que estava louca para confabular, mas tive que me segurar, até porque é a mesma historia: você fala, já pensa no que irá acontecer, cria expectativas e por aí vai. Só esquecendo de um detalhe: a realidade.

Não, não vou criar expectativas.

Desejei tomar outra xícara, mas recusei. Já era noite e estava com sono o bastante para cair na cama. Pode acreditar, o efeito do café sobre mim é totalmente ao contrário de despertar.

-Vamos. – Olhei para o celular. - Já são 21h15min!

Pagamos e saímos da lanchonete cool recém inaugurada.

-Lembra que meu celular caiu no banheiro do shopping? Sinto tanta falta dele.

-Tirou do baú essa hein, Lau! – Apressou Meg.

-Na época que Lau fez progressiva...

-E que a Sra. Van Praag me mandou tomar conta para não coloca-lo atrás da orelha. – Riu Meg.

-Caramba! – Lauren ficou perplexa. Acho que não havia se lembrado dessa...

-Até hoje eu tenho o bilhete – Acrescentou.

Cruzamos os braços uma nas outras até separarmos dos nossos destinos.

Capítulo cinco - Corra!

Estava quase certa de que a sobremesa seria sorvete com calda de chocolate, aquela que esquenta no microondas e endurece no gelado. Minha mãe estava tão boa trazendo essas comidas calóricas. Será que ela está querendo que eu engordasse? Ultimamente vem me achando magrinha, mas sabe como é mãe. Mesmo assim, não abri mão dessa deliciosa bomba calórica.

Peter e eu passamos o resto da tarde no videogame jogando The Sims. Era o único jogo que tínhamos em comum. O resto era de lutas e armas, o que eu não gostava, aliás, detestava.

Peter é do tipo de irmão chato e legal. Servia para algumas coisas, era bom menino, fofo, e lindo! – teve a quem puxar né?! – Passamos por momentos bons e por brigas de irmãos. Era mais bonitinho quando bebê, falo mesmo.

Quando eu tinha 9 anos, assistia essas programas infantis assim que acordava, e quando Peter faz o mesmo, vem aquele momento de nostalgia.

- Anne, já são cinco horas. Não vai se arrumar para sair?

- Ééééé, eu tinha me esquecido! – Coloquei o controle do videogame no tapete e levantei.

-Yeah! Vou poder jogar sozinho. – Ele dá um sorriso enorme olhando pra mim.

-Ah, moleque! – Fulminei-o com olhar.

- Nada disso, vai trocar de roupa e tomar um banho, depois da Anne.

Nessa hora, mostrei a língua pra ele. – Ahá.

-Droga... – Disse fazendo bico.

Com o calor escaldante lá fora, liguei o chuveiro no frio. E é engraçado, você vai pro chuveiro com a finalidade de se refrescar, mas no final das contas, você fica com mais calor. Depois dos passados vinte minutos, vêm os dez minutos de indecisão feminina: a escolha da roupa.

Não, também não sou daquelas que experimenta todas as peças de roupas e no final acaba usando uma simples, mas sou daquelas que tem tanta roupa que pra escolher é difícil. Usar jeans ou malha? Short ou saia? Regata ou blusão? Meu Deus, que parte chata. Nem posso perguntar a Allyson que a resposta é automática “Você que sabe, é você quem vai vestir a roupa” Obrigada mãe, você ajuda muito, sabe? Por essa resposta, nem pergunto mais.

Faltando quinze minutos para encontrar as meninas, vesti um jeans, salto e regata.

Corro pra sala e dou um beijo na minha mãe. Em seguida peguei a bolsa, coloquei nécessaire, chaves, dinheiro e celular.

-Que horas vai voltar? – Nessa parte esqueci que ainda estava nos 17 anos. Abrindo a porta, digo:

- A sessão que devemos pegar deve ser agora, então chegarei antes das 21 horas. Está bem? – Ela concordou com a cabeça e logo fechei a porta.

Um dos motivos foi: estava atrasada e o meu celular estava tocando. Era Meg.

-Espera! Estou saindo de casa agora. – Estava na rua e chegar até lá demora uns dez minutos.

-Ande, pois a nossa vez está chegando! Já estamos na fila. Veremos Muita calma nessa hora.

-Tá, vão indo. – Desliguei.

Na próxima vou lembrar de não jogar com o Peter quando eu for sair.

Capítulo quatro - BFF's

A comida ,como sempre, estava maravilhosa! Comi tanto que capotei no sofá. Só por alguns segundos. Sabe por quê? A linda Allyson me chama para tirar a mesa. Pois é. Poderia chamar o meu irmão, mas não. Tem que ser a Anne! Ele pode correr pro videogame, mas eu não posso correr para o sofá.

Fui com “boa” vontade. Entre aspas, com boa vontade zero. Os pratos já estavam retirados, só faltava a toalha e por o vasinho de flores. SÓ isso! Ela só me chamou para isso! Inacreditável.

Quando coloquei o vaso sobre a mesa, minha mãe diz:

-Anne... – Mas na mesma hora o telefone toca. E claro, atendi correndo. Pois sabia que era a Meg.

-Amiga! – Ela diz.

-Oi, fala.

-Está a fim de sair esta noite? Poxa, hoje é sexta! – Afirmou animadona. Aquela guria ama a rua.

-Está bem... Mas onde? – Uma interrogação imensa estava na minha cabeça.

-Pensei de irmos ao Cinema. Sei lá, ver algum filme juntas. Já chamei a Lauren e ela topou.

Já que não iria fazer nada, aceitei.

-E sabe quais filmes estão passando? – Internet pra quê, né?!

-Olha, não sei. Na hora, a gente ver isso.

Beleza! Sairei de casa esta noite. Preciso esquecer aquele menino –lindo- da minha cabeça. Só podia ser excesso de carência.

Desliguei o telefone e fui direto para o quarto. Abri a janela, sentei sobre ela e fiquei admirando... a rua. Pois é. Lembrei dos momentos em que saí com as meninas, quando tínhamos 15 anos. Íamos a aniversários, baladas que só serviam refrigerantes, shoppings e dormíamos uma na casa da outra. Conheci Meg desde o Ensino Fundamental I, e nossa amizade de lá pra cá só vinha crescendo. Ela viu o meu primeiro beijo, conheceu o meu primeiro amor (amor de criancinha, sabe?), meu segundo amor... E outras coisas. Sempre me ajudou, era a mais realista da dupla. Dois anos depois entrou a Lauren. Quietinha, tímida, super na dela, tão fofa, tão calada. Claro que chegamos nela, pois parecia bastante conosco. Com o tempo, foi se soltando, formando O Trio. Com letra maiúscula fica mais chique, tá?

Ah, foram ótimos momentos. E ainda me divirto com elas. Mas, a Meg tratou de ficar um ano a menos no colégio. Então, entrou a Kim. A invejo de ser oriental. Na verdade, descendente. Seu pai é japonês, nascido lá, e sua mãe é brasileira. Engraçadíssima, teima em tentar falar em inglês, aí já sabe, embola com as palavras. Se bobear, é pior que uma nordestina tentar falar a língua inglesa.

Acredite... Kim é assim. Sem contar, que é muito engraçada. Disse que um dia me levaria para o Japão, e isso foi quando? Cinco anos atrás.

Depois de ter pensado nisso, eu desviei o olhar para a rua, pois estava olhando o céu. - Já falei que amo o céu? – Meu coração disparou, meus olhos arregalaram e só faltava, bem pouquinho, cair da janela para dentro do quarto. Por sorte, estava me segurando, e também uma coisa não deixava.

Ok, ok, ok. Sem mais delongas, era ele, o vizinho novo. Estava vindo pela rua, e como minha casa fica bem no finalzinho, dá muito bem para vê-lo chegando. Reparei que anda com estilo, com as mãos no bolso, postura reta. Gostei, mesmo.

Sem contar do cabelo, né. Deve passar horas e horas só arrumando. Não sai do lugar, nem quando anda! Enfim, acompanhei com os olhos até entrar ao prédio. Respirei fundo, bem fundo, pois ele iria subir as escadas e passar pela minha porta a qualquer momento. Respirei mais fundo que eu pude, até levar um susto.

-Filha! – Minha mãe abre a porta, sem bater. Dei um salto na janela que caí, de joelhos.

Como não quebrei nenhum osso, reergui-me num minuto.

-Diga. – Estava voltando ao normal ainda. Ela me observou com um olhar estranho. Estranhando ainda mais a situação. Parecia que não me conhecia.

Ela entrou, fechou a porta e sentou na minha cama. Seu ar parecia de preocupação... Não sei. Olhei para o teto esperando que ela continuasse, quebrasse o silêncio.

- Bem,... Recebi uma ligação do colégio... – Ela deu uma pausa. Como sempre, parecendo normal, preocupação zero, sabe que sou ótima aluna, nunca fui para detenção, raramente me atraso.

-E aí? – Ainda esperando que ela continuasse. Uma coisa que me irrita é falar pausadamente, me deixando ansiosamente ansiosa. - Olha mãe, eu não fiz nada.

-Ah não, fez não! – Ela ri.

Olhei para ela com uma expressão “como assim?” Para quê aquele drama todo? Aquele silêncio? Olhei para outro lado do teto e pensei “será a idade?”.

Tirou logo dos meus pensamentos quando disse:

-Disseram-me que o Max passou! Que ótimo, não? – Seus olhos cor de mel estavam brilhando com seu sorriso largo.

-Ah, que ótimo. Sabia que iria passar, cara inteligente pra caramba.

-É, vê se gruda nele para virar uma nerd também. – Continuava rindo.

Ah, Allyson! Suas piadas não tem graça. E não me assusta desse jeito.

-Vou grudar sim, sem problema.

Levantou-se e retirou. Antes de fechar a porta, bradou: Terá sobremesa!