quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Capítulo dez - Baile

Estudo no Curso Primavera há 14 anos. E como já devem prever, todo ano é a mesma coisa, ou melhor dizendo, todo primeiro dia de aula é a mesma parada.
Você chega naquela manhã ensolarada de verão do mês de fevereiro, vestindo um uniforme nada legal e quente. Você já entra consciente dos deveres, das provas, dos trabalhos em grupos -o que eu detesto-, das zoações, das panelinhas, das fofocas... E, lógico, dos momentos que serão inesquecíveis.
Seu uniforme é azul escuro e branco, com o emblema costurado no blazer das meninas e dos meninos. Sempre me comparei a uma estudante japonesa por ser bem parecido no modelo.
E sem contar que logo às sete da manhã, nós ouvimos um "bem-vindos" após de um logo discurso do diretor.
Estava indo para o meu último ano do ginásio, o ano da minha formatura, sem saber qual faculdade fazer. Claro, tinha algo em mente, mas nada concreto.
Chegando lá com o Peter, eu ainda estava morrendo de sono e pensei que estar lá era a última coisa que eu queria. Acho que já estava cansada da escola... Da mesma escola. Pena que o Peter tinha muito tempo pela frente, muitos anos a ficar no Curso Primavera. Sorte a minha. Não aguentava mais.

Dentro do colégio, assegurei-me de que o Peter estava em segurança com os seus amigos do mesmo tamanho, e, fui andando pelo pátio enorme entre o portão e o prédio. Seu terreno era cercado de jardim bem esverdeado, predominando as flores da Primavera, e com uma fonte jorrando água cristalina no centro. Sempre que passava por esta fonte, minha vontade era de empurrar Ashley de lá. Ashley Martin. Falarei mais dela no decorrer da história.
E em falar na fugura, ela aparece justamente com suas seguidoras, olhando para mim de baixo para cima (Sem sapatos Luana Zabot, nada de jeans Colcci e blusa da TNG... Por que me olhara dessa forma? Pelo amor, estava de uniforme!), dizendo:
-Olá, Annette. Como foram as férias? -Olhou para uma das discípulas, dando um risinho, continuando. - Aposto que passou em casa cuidando do seu irmãozinho, dando uma de babá, limpando o xixi da cama. -Dito isto, todas riram, mesmo eu não vendo graça.
Sua voz era fina e se ouvida o dia inteiro, ficaria com dor de cabeça. Uma voz tão aguda que era capaz dos ouvidos não aguentarem, à ponto de explodir. Não digo isso por ódio, não que eu a odiasse, de forma alguma. Mas desde pequena, já me incomodava com sua voz. Ah, sobre o lance de babá, ano passado eu trabalhei como uma para os vizinhos de Ashley a fim de ajudar o papai na compra de um terreno para começar seus negócios. E sabe, vendo agora, me arrependi profundamente por tê-lo ajudado. Foi aí que a Margareth surgiu. Tudo bem, ele era meu pai e não aguentava vê-lo naquela situação, porém nisso tudo estou prestes a ter uma madrasta.
E sem contar que a Família Montgomery eram seus vizinhos, justo.
Bem, não estava a fim de jogar conversa fora com ela em plena manhã, então, disse curta e grossa:
-Olá. Foram boas. E não. -Minha cara de enfezada aparecendo nesse instante. -Ah, licençinha!
Desviei e segui meu caminho. Minha paciência havia se esgotado naquele instante.
Fale a sério! Fica tomando conta da minha vida e ainda por cima debochando. Felizmente não teve que passar uma situação dessas.
Felizmente? Não! Ela tinha de passar, para ver se calasse aquela boca pintada com MAC.

Já no corredor procurando o meu armário, acabo com uma surpresinha: Não o encontro. Isso mesmo, ele desapareceu. Meu número de todos os anos não estava em nenhum armário. Estranhíssimo...
Ah, óbvio! Armação da loura. Mas ela vai ver só! Soquei o armário que estava a minha frente, sem mesmo saber de quem era, que era pra ser o meu!
Nisso mudei a minha direção para a secretaria que ficava logo à esquerda quando a inspetora anuncia com o bendito apito -justo no meu ouvido!- para que todos os alunos fossem ao pátio externo para aquelas "boas-vindas" que mencionei antes.
Nesse momento quase xinguei a senhora Dulce por todos os nomes, mas não o fiz porque Lauren e Meg apareceram no mesmo instante, atrapalhando o meu repertório de xingamentos.
Elas me pegaram pelo braço cruzando-os e me arrastando em direção ao pátio. Sabe, eu gosto muito das meninas, elas eram o motivo pelo qual vinha à aula. Porém, algo me irritava tanto sobre elas: quando aparecem em momentos não esperado. Odeio quando aparecem do nada, seja para interromper ou estragar, que no caso, foi o que acabara de acontecer. Tentei pará-las, entretanto, a força era maior que o peso.
-Meninas, eu tenho uma palavrinha para a senhora Dulce, espera aí...
-Eu tenho certeza de que não é mais legal que isso aqui. - Meg afirmou.
Quando dei por mim, já estava lendo um cartaz pendurado em duas árvores, cheio de purpurinas e essas frescuras de Ashley, e, uma multidão estava fitando o tal cartaz.
-Não é maneiro, Anne?! - Lauren com um sorriso de ponta a ponta, Meg batendo palmas e dando pulinhos e eu de queixo caído.
Eu conseguia escutar o falatório ao redor e a felicidade do diretor que se orgulhava pela escola e pelo bom trabalho que estava fazendo, pois pela primeira vez em vinte anos teríamos um baile de boas-vindas aos estudantes.

De fato era só para o ginásio. E como era Ashley Martin que estava organizando tudo, ela não iria gostar de ver pirralhos -na mesa atacando comida- presentes em sua festa. Achei muito bom porque não precisaria levar meu maninho e nem tomar conta.
Você pode estar se perguntando por que justo Ashley a organizadora. Pois bem, seus pais são muito ricos e muito amigos do diretor, então eles ajudam na área financeira do Curso Primavera, até porque é onde sua querida filhinha estuda, e para sua boa reputação. Ashley, festeira do jeito que é, seria muito bem encarregada para fazer um baile, pois tendo o dinheiro de seus pais e permissão do diretor, a festa seria feita apenas por ela, sem nenhuma intervenção.

Confesso que gostei. Porque vejamos, iríamos ter duas festas naquele ano. A de boas-vindas e a de formatura. Mas nessa apenas os alunos iriam.
Depois do alvoroço do pessoal em relação à novidade que estava contida no cartaz, o discurso do diretor e a tentativa de encontrar a senhora Dulce, já estava na sala, sentando na minha carteira dos fundos. Respirei fundo e fechei os olhos, me conformando da volta à rotina, das minhas notas que iriam vir e da chatice de aturar a patricinha loura todas as manhãs...
Segundos depois abri os olhos e ela já estava sentando-se a algumas carteiras à frente, me fitando com seu olhar altivo e brilhante por ser azulado. Parecia a Malévola.
Infelizmente não ganhei olhos claros e nem a cor loura dos cabelos, entretanto, se eu tivesse encheria meu guarda-roupa de blusas azuis para destacar os meus olhos.
Ok. Nasci de olhos castanhos.
Após soltar faíscas pelos olhos, sentou-se por fim jogando os cabelos enrolados nas pontas e rindo com as seguidoras. Logo após, Lauren me cutuca:
-Então, tem roupa para ir?
-Acho que não...Faz um tempo que eu não vou à uma festa, tenho que ver se as que eu tenho ainda cabem em mim.
-Também! - Retrucou animada. - O que acha de irmos comprar um novo? - Seus olhos castanho-mel arregalaram-se em frenesi. - Deve ter modelos novos...
Lauren era bem radical. Tinha cabelo vermelho e estilo meio grunge. Não que ela não tomasse banho, mas em suas roupas o xadrez destacava-se com uma blusa de banda por baixo. Detestava usar o uniforme assim como eu. E eu tinha certeza que seu vestido recém-comprado seria customizado por ela assim que chegasse em casa.
Enfim, topei. Afinal, eu tinha que ir bonita.