O fim da tarde com o Adam foi bem legal, apesar de ele ter ganhado com 27% de diferença, fazendo os meus polegares doerem até os meus músculos dizerem chega.
Na verdade, não sei quanto tempo fiquei lá. Melissa não se incomodou com a nossa presença. Fez até cookies para lancharmos. Minha fome estava apertando, admito. Mas só percebi depois do jogo e quando o cheiro estava chegando à sala.
Vou comentar... Sou péssima no Guitar Hero, literalmente.
Nesse período, Adam me passou algo bom, além do calor que sentia ao estarmos próximos. Era algo que sentia quando estava com ele, apenas.
Parecia que eu já o conhecia faz tempo. Ou até mesmo em reencarnações.
Se eu realmente acreditasse em vidas passadas, diria que talvez tenhamos nos encontrado no século 18. Eu, Annette, vestindo aqueles espartilhos estilo Maria Antonieta e o Adam como o Luis XVI, nos grandes salões de festa. Tentando-o seduzir com o meu olhar atrás da máscara de fantasia. Ele, claro, muito mais bonito e elegante com sua roupa de nobreza e aquela peruca branca mega engraçada.
Ou até mesmo na década de 1960, a que mais amo, no auge dos Beatles, vestida de bolinhas pretas num vestido de tom amarelado com faixa na cabeça, conversando com minhas amigas na danceteria de piso preto e branco. Ele aparecendo em seguida com seus amigos, vestido de camisa branca e casaco de couro preto e topete cheio de gel.
Só que um detalhe: com aqueles olhos pretos brilhantes e encantadores.
Sim, acabei rindo ao imaginar essas cenas.
Voltando para realidade, isto não aconteceu. Pra mim não existe vidas passadas. E o Adam eu conheci agora, aqui no meu prédio, em pleno século 21.
Mamãe não havia chegado ainda. Pensei que a comida do novo restaurante fosse muito boa ou a conversa estava boa. Sem contar que a Rose fala demais. Sim, não pára. Só quando bebe a sua Coca-cola zero.
Já em casa, deitei-me no sofá. Melhor dizendo, me joguei e fechei os olhos.
Que dia havia sido!
Meus pensamentos voltaram-se para o shopping. Eu não conseguia engolir aquela história. Já foi difícil pra eu agüentar o namoro dos dois, de aceitar, de cair a ficha que meus pais tinham se separado. Agora vejam só, irão se casar!
Minha vontade era de gritar. Realmente estava indignada.
Meu pai sempre me chamava de “minha menininha.” Eu era “sua menininha”! Aliás, eu sou.
Mas é bem provável que a Margareth tenha uma filha e ela pegue o meu lugar. O meu status.
Ah, isso não. Que raiva!
Será que se esqueceu de nós? Dos momentos felizes em que passamos? Será que acabou o amor dele para com Alyson?
Essas perguntas fizeram com que meus olhos enchessem de água. Virei de lado no sofá e fixei meus olhos para o porta-retrato sobre a mesa de centro. Lá estávamos nós quatro, sorridentes, na minha apresentação de dança. Estava com 11 anos, e Peter na barriga da mamãe.
Não quis que tirassem esse retrato ou guardassem. Aquele dia havia sido muito bom para mim. Minha primeira apresentação da dança que eu mais amava e minha família estava presente, me prestigiando. E para mais felicidade, o Peter nasceu à noite.
O problema agora é que eu não sabia se mamãe já sabia do casamento marcado. Porque até então, chorava todas as noites por causa dele. Apesar do seu sorriso durante o dia, no trabalho ou em casa, a noite se transformava em tristeza, em saudade.
Senti os passos de Peter vindo à sala devagarzinho até a poltrona oposta ao sofá. Olhei para ele e vi que já estava de pijama, a que mais gostava, de algodão do Bob Esponja. Apenas sorri, dizendo:
-O que houve? Já vai dormir?
Balançou a cabeça, sua carinha era de sono.
-Como vou dormir se não jantei?
-Bobo! – É verdade, havia me esquecido do seu jantar. – Está bem, farei agora. O que quer comer? – Perguntei logo me levantando do sofá. Ele tinha que dormir cedo para ir à escola amanhã cedo... Opa! A escola! Eu me esqueci completamente.
-Peter, amanhã começa as aulas! – Saltei do sofá, andando de um lado para o outro com a mão na testa.
-Jura maninha... – Sua voz saiu baixa, e um pouco debochada. - Fica pensando no Adam, e olha que no dá. – Dobrou as pernas, encostando os joelhos na altura do peito e ficou me olhando, sorrindo.
-Que Adam o quê, menino. Tenho mais no que pensar!
-Ah sim... Sei. Aposto que estava pensando nele agora. Ai meu Deus! Como ele é lindo! – Tentou imitar a minha voz.
-Olha aqui, Peter. – Parei de andar, me segurando no encosto do sofá. – Se continuar eu não farei o seu jantar, e aproveitarei pra arrumar o meu material e dormir. Espere a mamãe. –Andei até o meu quarto, mas parei na porta do corredor para comunicá-lo:
-E ah, eu não tenho essa voz.
Já fechando a mochila com todo o material para segunda-feira, minha mãe aparece abrindo a minha porta. Sorridente, falou:
-Oi filha, cheguei! – Ela olha para minha mochila. – Hum, animada para o primeiro dia de aula?
-Ah, super... – Falei num tom irônico e coloquei na cadeira do computador. – E como foi lá? – Sentei na cama, já com a roupa para dormir.
Ela se sentou também, mas na beirada.
-Estou por aqui de comida. – Pôs as mãos no pescoço. – Muito bom o restaurante. E você? O que você e seu pai fizeram? Peter ficou me contando o que ocorreu lá na casa do Adam até eu coloca-lo pra dormir. – Riu.
-Eles são feras no vídeo-game, tenho que admitir. E a Melissa foi um amor com a gente. – Sorri, desejando não ter que contar a parte com meu pai... E num segundo veio em mente o acontecimento de sexta. - Eu já conhecia o Adam de vista. Quer dizer, a Diva foi pra porta de Melissa cheira porque estava com cheiro de comida delicioso. Então quando fui pegá-la o Adam apareceu.
-Ah, é? - Ficou ainda mais surpresa.
-Sim, mas passou direto. Não houve aquela troca de diálogos entre vizinhos, sabe? Com certeza me achou uma estranha ou maluca.
-Só que pelo visto gostou muito de você. – Sorriu com esta conclusão.
-Não acho mãe. - Olhei seriamente em seus olhos, desejando que aquilo fosse verdade.
-Por que não? Percebi que ele te olha de um modo diferente.
-Acha mesmo? – Mordi os lábios. Por mais que eu estivesse duvidando, eu estava feliz. Queria pular nesse exato momento.
-Sim, mas é estranho... Só se conheceram hoje, certo? –Não. Ontem também quando a Melissa precisava de açúcar.
Quase disse isso, mas preferi ficar calada.
Queria realmente falar sobre isso, o que eu sinto quando estou com o Adam, aquele olhar que me deixa arrepiada, e tudo o mais. Mas já estava tarde.
Disse que estava cansada e que amanhã falaríamos disso. Concordou me beijando na testa e dando um "boa noite" e foi para o quarto.
Deitei e fechei os olhos aliviada.